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Religião e simbolismo

“Quanto mais se estudam as religiões, melhor se compreende que elas, do mesmo modo que as ferramentas e a linguagem, estão inscritas no aparelho do pensamento simbólico. Por mais diversas que elas sejam, respondem sempre a esta vocação dupla e solidária: para além das coisas, atingir um sentido que lhe dê uma plenitude das quais elas mesmas parecem privadas; e arrancar cada ser humano do seu isolamento enraizando-o numa comunidade que o conforte e o ultrapasse”

(Vernant)

FÉ, EXPRESSÃO E CULTURA: Por uma liturgia de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes.

Cláudia Sales de Alcântara[1]

A Liturgia é a expressão de situações concretas de pessoas e que, portanto, fala muito de seus sofrimentos, alegrias e esperanças, fazendo com que a fé assuma características próprias. Dessa forma, quanto mais elementos e matrizes culturais tiver uma liturgia, mais rica ela será.

Apesar do número significativo de negros na população brasileira, a igreja protestante, conhecida hoje como evangélica, não tem observado a riqueza cultural que esta matriz possui e pode proporcionar à liturgia dos cultos evangélicos. De modo geral, as liturgias das Igrejas ditas evangélicas no Brasil são brancas e o negro para ter acesso a elas tem que sofrer um processo de branqueamento.

É por isso que surge este artigo, uma proposta litúrgica de afirmação às raízes étnicas e culturais afro-descendentes, para que também as igrejas evangélicas possam avançar neste sentido e enriquecer seus cultos da beleza negra brasileira.

(1) Arquiteta, teóloga e mestranda do curso de Educação Brasileira pela UFC.

veja o texto na íntegra

O medo

“Em verdade temos medo. Nascemos escuros. As existências são poucas: Carteiro, ditador, soldado. Nosso destino, incompleto.”

(Carlos Drummond de Andrade)

Ah, se eu soubesse onde o poderia achar! Então me chegaria ao seu tribunal. Eis que se me adianto, ali não está; se torno para trás, não o percebo. Se opera à esquerda, não o vejo; se se encobre à direita, não o diviso. (Jó 23:3,8,9).

O livro dos códigos (Deuteronômio) diz que o temor do Senhor é o caminho que pavimenta Sua direção (Dt. 6:2). Salomão também disse: “o temor do Senhor é o princípio da sabedoria”. É interessante notar por que esse método divino de interação causava pavor. Ora, o povo clamava por uma visitação e no mesmo instante sentia-se atemorizado por uma demonstração de poder. (Mateus 17:6) “E os discípulos, ouvindo isto, caíram sobre os seus rostos, e tiveram grande medo.” O apóstolo Paulo admite que passou por “Lutas por fora temores por dentro” (2Co. 7.5). No Sinai o povo sentiu temor. ( Ex 19:16). Além disso no evangelho de Lucas a palavra tem sua origem da raiz fugir. (Lc 1:28).

Parece paradoxo o modo do ser humano interagir com Deus. O homem revela verdades que inquietam, devido o vazio existencial e ausências de respostas, percorre, às vezes, uma escuridão infinita, até chegar a algum lugar. Não tenho certeza se esta busca estimula o instinto de sobrevivência. Principalmente o inacessível – que não tem acesso. Mas acredito que, isto sim, por não conhecer, lhe causa medo. De fato, concordo com idéia do psicólogo W. F. Bion quando disse “Amor, ódio e conhecimento são elementos que formam a trama em que se funda toda experiência”.

A igreja deve gerar pessoas que aprendam a caminhar com nossas ambigüidades. Com as sombras evidenciadas de nosso caráter, assim como o nosso brilho do testemunho fiel. Jesus impele-nos, fielmente, a buscar uma vida com o Pai, pois Ele não é indiferente às nossas dificuldades de ir além desde mundo visível. Visto que em meio ao medo, Ele rompeu o mundo visível e veio até nós por amor. (Jo. 3:16) e conhecendo-O, confiamos. “Ainda que eu caminhe por um vale tenebroso, nenhum mal temerei, pois estás junto a mim;… ” (Sl 23).

Todos os dias, permaneça quieto diante de Deus, em meditação, e peça ao Espírito Santo que lhe revele a verdade da presença de Cristo em você. Roque a Deus que Se agrade em mostrar-lhe qual é a gloriosa riqueza desse mistério. (Cl. 1.27).

Religião e economia

Os crentes nas virtudes redentoras do capitalismo globalizado acabam, pela sua própria fé no mercado, caindo numa armadilha. A fé na capacidade da “mão invisível” do mercado de transformar, de efeitos não intencionais, a somatória dos interesses próprios em bem comum não permite que se pense e procure soluções para a crise fora da própria lógica do mercado. Buscar soluções extramercado, como a intervenção do Estado ou da sociedade civil, seria negar a fé no mercado.

A partir desta crença, todos os problemas sociais são visto como “sacrifícios necessários” exigidos pelo mercado. Esta transcendentalização do mercado e o sacrificialismo daí decorrente é criticado pelos teólogos da libertação como idolatria do mercado. A noção ocidental de “sacrifícios necessários” está fortemente marcada pela interpretação da cristandade sobre a morte de Jesus. Ao interpretar a morte de Jesus como sua morte sacrificial definitiva e plena exigida por Deus-Pai para a salvação da humanidade, a cristandade acabou consolidando a idéia de que não há salvação sem sacrifícios.

Esta teologia tem como resultado uma transfiguração do mal. Quando os sofrimentos impostos sobre seres humanos são considerados como caminhos exigidos por Deus para a salvação, estes sofrimentos deixam de ser mal e passam a ser um “bem” ao qual não podemos e nem devemos querer fugir. Esta inversão, típica da idolatria, tem o poder de gerar consistências tranqüilas diante do sofrimento humano. É o que antes denominamos de “cultura do cinismo”. Este tipo de teologia sacrificial serviu, por exemplo, para justificar o sacrifício de milhões de indígenas na América. Serve também para que teólogos como Michael Novak critiquem teologias e comunidades que lutam para minorar o sofrimento dos pobres dizendo: “se Deus desejou que seu amado filho sofresse, por que iria poupar-nos?”

Um outro ponto importante na nossa missão é o problema do sacrifício. O ídolo é o deus que exige sacrifícios de vidas humanas, que não perdoa e nem ouve os clamores dos pobres. Deus , pelo contrário, é Aquele que ouve os clamores, e ao invés de exigir sacrifícios, oferece como dom a misericórdia.

Sabemos que o sistema de mercado “bebeu” de uma determinada configuração histórica do cristianismo a sua teologia sacrificial. É obvio que o sacrificialismo esteve e está presente em muitas outras religiões e sociedades, mas também é inegável a influência da teologia sacrificial cristã na mentalidade do Ocidente. Na luta contra a cultura de insensibilidade que marca o nosso tempo, é fundamental mostrarmos que o sofrimento, em particular dos pobres excluídos por um sistema econômico opressor e injusto, não é uma exigência de Deus para a salvação. Precisamos com nossas práticas e testemunho de vida mostrar que o que Deus quer “é misericórdia e não sacrifícios”(Mateus 9:13).

Jung Mo  Sung. Desejo, mercado e religião. p. 124/133

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