Gilberto Safra ensina-nos que o homem emerge em si mesmo, a fim de que possa acontecer e iniciar o processo de inicialização (culturalmente) a partir de um lugar, não um lugar físico. Ele (homem), em seu nascimento não garante uma participação no mundo ou ambiente favorecido. Partindo dessa premissa, todos nós compartilhamos dessa realidade para vivermos integralmente. Ou seja, a pessoa precisa do próximo para ver a si mesmo. Isto, porém, nos leva ao seguinte questionamento. Qual? O mundo partilhado real é diferente do idealizado.
Da mesma forma Júlio Zabatiero, no prefacio do livro ética cristã, diz: “Numa sociedade pluralista, como a em que nós vivemos, é fundamental a existência de valores éticos definidos que norteiem a conduta dos cristãos, de modo que venham a oferecer um modelo de vida alternativo à sua sociedade. No meio evangélico há diferentes propostas éticas, quer conscientemente elaboradas, quer não: todas querendo a aprovação dos cristãos, reivindicando serem bíblicas.” Logo, é uma construção de todos e elos que se juntam.
Desde os primeiros passos da minha fé cristã, escuto declarar que a igreja é um organismo vivo e, portanto, em seu caráter têm a responsabilidade de transformar e influenciar a sociedade. Caso contrário, perde sua característica. Por isso, gostaria de discorrer e acentuar esse assunto trazendo dois textos:
A lógica do capitalismo é criar necessidades, para então satisfazê-las. Barbara Axt
Na nossa cultura, o consumo se tornou a medida de uma vida bem-sucedida da felicidade e da decência humana. Com isso, a noção de limites para os desejos humanos foi apagada e se instaurou a idéia de que todos têm o direito e a obrigação de realizar todos os seus desejos de consumo. Dessa forma, nenhuma quantidade de aquisição e sensações emocionantes tem possibilidade de trazer satisfação esperada, pois não há um padrão de consumo a ser mantido na medida em que o padrão desejado, a linha de chegada, avança junto com o corredor, e as metas permanecem continuamente distantes. São inseguranças, frustrações e medos dessa corrida sem vencedores finais que constituem esses demônios interiores da cultura de consumo.
Só que na mentalidade de fortaleza sitiada – tomada visível em condomínios fechados, bairros exclusivos, tentativa de construir muros em volta das favelas, etc. – , os demônios interiores são projetados para fora na figura dos inimigos que lhes ameaçam. Nesta lógica, “os excluídos do jogo’ (os consumidores falhos) são exatamente a encarnação dos ‘demônios interiores’ peculiares à vida do consumidor.” “cada vez mais, ser pobre é encarado como um crime; empobrecer, como produto de predisposições ou intenções criminosas – abusos de álcool, jogos de azar, drogas, vadiagem e vagabundagem. Os pobres, longe de fazer jus a cuidado e assistência, merecem ódio e condenação – como a própria encarnação do “pecado”. BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p. 57, 59 Citado por Sung J. M. Sementes de esperança.
“A sociedade do progresso rápido, a sociedade capitalista, é filha legítima do demônio.” Fernando Pedreira
A revista ultimato trouxe uma estatística bastante informativa: Os 10% mais ricos do Brasil faturam 68 vezes mais que os 10% mais pobres. A transferência de 5% da renda dos mais ricos para os mais pobres poderia tirar da miséria 25 milhões de pessoas (15% da população). São Paulo é a única cidade do mundo que tem duas lojas Montblanc. O Brasil é o segundo mercado de helicópteros e o único país do mundo onde a Cartier vende a prazo. A marca italiana Diesel escolheu São Paulo para abrir seu segundo hotel, depois de Miami.
Como salvar a vida de 900 mil crianças até 2015
Embora tenha havido uma ampla redução da extrema pobreza no mundo nos últimos 25 anos, mais de 1 bilhão de pessoas ainda vivem com menos de 1 dólar por dia (menos de 70 reais por mês).
Chega a quase 300 bilhões de dólares o que os Estados Unidos estão gastando com as guerras no Iraque e no Afeganistão.
Com 25 milhões de dólares por ano, seria possível reduzir bastante a desnutrição nos países mais críticos da África e da América Latina e, com isso, salvar a vida de 900 mil crianças até 2015.
Uma guerra é capaz de destruir em horas o que levou anos ou décadas para ser desenvolvido.
A pobreza faz com que 44% da população da América Latina viva em favelas ou bairros precários, que só oferecem condições mínimas para sobreviver.
Em pleno século 21, a fome ceifa 5 milhões de crianças todos os anos (a cada segundo morre uma criança de fome). Quando não matam, a desnutrição e a fome causam muitos sofrimentos, inclusive dor e deficiências físicas e mentais, na maior parte das vezes para sempre. O mercado de luxo movimenta mais de 200 bilhões de dólares por ano, e este montante pode chegar a 1 trilhão de dólares daqui a cinco anos. (1)
(1)Ultimato: Dinheiro, consumismo e luxo: demônios vestidos de branco. nº 298, Jan/Fev. 2006