O “equívoco” do silêncio de Deus
Do “silêncio” de Deus à sua “ evidencia”.
1) Talvez seja tão esclarecedor quanto começar por um conceito bem extenso e de longa tradição: o “silencio de Deus”. Esclarecedor, porque expressa ao mesmo tempo a dificuldade real e o equivoco que faz esta falar de assimilação.
Dificuldade real. Sempre constituiu o grande enigma. Na própria Bíblia, os crentes sentem duramente o peso do silêncio divino: não como uma negação da existência (pois como dissemos, o sagrado era na antiguidade algo óbvio), porém sim como sensação de abandono indiferença. Abandono íntimo: “Não seja surdo a minha voz, porque, se tu te calas, serei mais um dos que descem à cova” (Sl 28.1 ). desamparo dante da negação: Não fiques calado, em silencio e quieto, Senhor; olha que teus inimigos se agitam, e os te odeiam levantam a cabeça” (Sl 83.2 – 3, cf. Sl 53.22; 39.13;109.1 Hc 1.13 Is.64.11). Em nosso tempo, uma obra de tanta repercussão no publico e tão fina na hora de captar atmosfera cultural como é a de Chales Moeler, Literatura del siglo XX y cristianismo 11 , abre o primeiro justamente com este título: “ O silencio de Deus” . Como muito significativo acerto, inclui protagonista tanto crentes como não-crentes, porque, se distinta é a resposta, comum é o problema.
E não há necessidade de recorrer a testemunhas externas: de um e de outro modo, na vida década um de nós – na certeza da presença e na esperança do encontro, ou na angustia da ausência e no temor d desamparo – deixa sentir inevitavelmente seu peso. A dificuldade é real.
11 Ch. Moeler, Literatura del siglo XX y cristianismo1, 4ª ed.Madri 1964, que estuda A. Camus, A. Gide. A. Huxley. S. Weil, G. Greene, j. Bermanos.
2) Ao mesmo tempo, porem, encerra um equivoco. Exatamente o mesmo equivoco que encontramos ao estudar o mal: supomos que deus cala voluntariamente, quando podia falar mostrando-se com clareza e tornando tudo mais fácil e simples.
Depois das reflexões do capítulo anterior não fica muito difícil compreender que não é assim: que, melhor, é exatamente o contrário. Não se trata do silencio de Deus, mas da incapacidade da criatura para escutá-lo. Basta pensar um pouco para intuir que não poderia ser de outra maneira.
Ouvir, ver, perceber, conhecer… são operações que supõem uma reciprocidade do ser e no agir. Captamos a cor de coisa e escutamos a voz de uma pessoa porque participamos da mesma engrenagem física, nos movemos no mesmo jogo de forças e estamos com eles no interfluxo continuo que constitui a normalidade de nosso ser: a luz refletida na paisagem ou a onda sonora que vem do interlocutor nos encontram em nosso terreno e suscitam em nós uma resposta conatural. Com Deus, porém, isso não ocorre(nem pode ocorrer). A “diferença ontológica” enuncia em terminologia técnica o que, à sua maneira, é de evidencia comum: entre o Criador e a criatura, há distancia intransponível, heterogeneidade radical, dissimilitude abismal. Falta o “enganchamento” natural, e todos os caminhos parecem cortados. Nestas circunstâncias, que pode o ser humano captar? Como poderia conter em uma concha de criança o oceano da comunicação divina?
Uma simples experiência ao contrario pode esclarecer isto. Imaginamos que Deus decida se manifestar-se de modo totalmente clara e inequívoca aos homens. Como o fará, se ele é por essência o Invisível? Terá de mostrar-se de alguma forma concreta, a qual, justamente por isso, já não seria ele, porque seu Ser supera toda forma e está além de toda figura. A máxima evidencia se tornaria assim, automaticamente, o erro máximo. Leszek Kolakowski elabora algo parecido e conclui com profunda sobriedade filosófica:
Que fará? Que classe de milagres extraordinários terá de realizar para que ninguém em sã consciência deixe de perceber sua mão? È fácil dar-se conta de que não poderia fazer nada desse tipo. (…) Assim, pois, Deus está incapacitado de criar uma evidencia empírica de sua existência, que pareça irrefutável ou não menos sumamente plausível em termos científicos; afirmar isto não equivale em absoluto a limitar sua onipotência… L. Kolakowski, Si Dios no existe… Madri, 1985, pp. 77s
Queiruga, Andrés Torres. Creio em Deus Pai; O Deus de Jesus como afirmação plena do humano. 2ª ed. São Paulo. Paulus, 2005.p.169













