Os crentes nas virtudes redentoras do capitalismo globalizado acabam, pela sua própria fé no mercado, caindo numa armadilha. A fé na capacidade da “mão invisível” do mercado de transformar, de efeitos não intencionais, a somatória dos interesses próprios em bem comum não permite que se pense e procure soluções para a crise fora da própria lógica do mercado. Buscar soluções extramercado, como a intervenção do Estado ou da sociedade civil, seria negar a fé no mercado.

A partir desta crença, todos os problemas sociais são visto como “sacrifícios necessários” exigidos pelo mercado. Esta transcendentalização do mercado e o sacrificialismo daí decorrente é criticado pelos teólogos da libertação como idolatria do mercado. A noção ocidental de “sacrifícios necessários” está fortemente marcada pela interpretação da cristandade sobre a morte de Jesus. Ao interpretar a morte de Jesus como sua morte sacrificial definitiva e plena exigida por Deus-Pai para a salvação da humanidade, a cristandade acabou consolidando a idéia de que não há salvação sem sacrifícios.

Esta teologia tem como resultado uma transfiguração do mal. Quando os sofrimentos impostos sobre seres humanos são considerados como caminhos exigidos por Deus para a salvação, estes sofrimentos deixam de ser mal e passam a ser um “bem” ao qual não podemos e nem devemos querer fugir. Esta inversão, típica da idolatria, tem o poder de gerar consistências tranqüilas diante do sofrimento humano. É o que antes denominamos de “cultura do cinismo”. Este tipo de teologia sacrificial serviu, por exemplo, para justificar o sacrifício de milhões de indígenas na América. Serve também para que teólogos como Michael Novak critiquem teologias e comunidades que lutam para minorar o sofrimento dos pobres dizendo: “se Deus desejou que seu amado filho sofresse, por que iria poupar-nos?”

Um outro ponto importante na nossa missão é o problema do sacrifício. O ídolo é o deus que exige sacrifícios de vidas humanas, que não perdoa e nem ouve os clamores dos pobres. Deus , pelo contrário, é Aquele que ouve os clamores, e ao invés de exigir sacrifícios, oferece como dom a misericórdia.

Sabemos que o sistema de mercado “bebeu” de uma determinada configuração histórica do cristianismo a sua teologia sacrificial. É obvio que o sacrificialismo esteve e está presente em muitas outras religiões e sociedades, mas também é inegável a influência da teologia sacrificial cristã na mentalidade do Ocidente. Na luta contra a cultura de insensibilidade que marca o nosso tempo, é fundamental mostrarmos que o sofrimento, em particular dos pobres excluídos por um sistema econômico opressor e injusto, não é uma exigência de Deus para a salvação. Precisamos com nossas práticas e testemunho de vida mostrar que o que Deus quer “é misericórdia e não sacrifícios”(Mateus 9:13).

Jung Mo  Sung. Desejo, mercado e religião. p. 124/133

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