A reflexão sobre religião corre hoje perigo, o seu maior perigo: o de transmitir aos temas da religião a preocupação, que remonta tanto à tradição metafísica quanto ao positivismo, de uma verificação da realidade e da presença dos entes que são o objeto do discurso religioso. O perigo que a filosofia pode correr não seria justamente o de fazer com o significado e o valor do discurso religioso dependam da inspeção de suas entidades demonstráveis, como entidades presentes e de alguma forma verificáveis? Pelos instrumentos da razão ou da experiência? Devemos então fazer com que o significado do discurso religioso – como o de qualquer outro discurso – dependa do método de controle sobre a consistência daquilo de que se fala, enquanto se fala? Devemos então atrelar o destino do discurso religioso ao destino de uma regra metódica, que atribui legitimidade e plausibilidade aos objetos conformes aos próprios procedimentos canônicos? Mas se, ao contrario, nos emanciparmos da noção da racionalidade, concebida de como estado de coerção das regras, estaremos então condenados à caça de imagens ilusórias, ou seja, estaremos penetrando num território em que, por assim dizer, tudo é mais ou menos permitido? Ao reagirmos às atitudes da metafísica tradicional, que aspirava à certificação da presença dos entes como condição preliminar de seu significado, e ao nos rebelarmos em seguida contra a dura disciplina neopositivista, segundo a qual seria possível falar de Deus e de todos os outros objetos que tem efeito discurso religioso se dispuséssemos de sense-data, erlebnisse, comodiriam respectivamente Russel e Carnap, poderíamos nos entregar ao modo anafórico do discurso, ou seja, àquele que estabelece a referencia ou a denotação do que se diz, unicamente, em virtude do discurso? Como quando Leibniz, nos Novos ensaios observava, durante o inverno em Hannover, que mesmo não havendo cerejas na natureza as cerejas permaneciam como referentes do discurso, em virtude do próprio discurso? Mas o discurso anafórico é só o indício da dificuldade de que estamos tratando, pois é somente o sintoma da nostalgia do esquema referencialista, que exige que um nome e uma proposição tenham significado se, e somente se, a eles corresponder respectivamente um objeto e um fato. O discurso anafórico é uma formação de compromisso vicarial do paradigma semântico-referencialista da presença.

A reflexão filosófica que em nossos dias retoma a esfera religiosa permaneceria inibida em sua meta caso se manifestasse num movimento do discurso que comede o seu próprio teor segundo a discriminação, sentida como decisiva e fatal (por efeito da tradição cultural ontoteológica que pesa sobre os filósofos), entre o que existe, que é presente real, e o que, ao contrário, vive no sopro fantasmático do mito, no horizonte da crença infundada e do relato que concede apenas uma existência anafórica aos objetos de que fala. Não teria sentido e não levaria a lugar nenhum um discurso cujo projeto fosse a refundação teórica, em termos lógico-metafísicos e epistemológicos, das entidades das quais, historicamente, a teologia se ocupou. Mas a resistência a se subtrair daquele pressuposto e daquele vinculo é tenaz. O discurso religioso deverá então perder o vasto horizonte do seu significado e abrir mão de sua atualidade para não ter renunciar ao empenho ontológico para com os seus objetos? Em outros termos, deveremos falar de Deus como de uma entidade antropomórfica idealizada, que transcende o mundo empírico, espaço-temporal, e subsiste numa região ontológica diferente? Deveremos viver a fé como uma postura que se projeta para além da razão finita e limitada, na verdade para, com o salto na aproximação, realizar o que a razão não pode – ou seja, estabelecer a presença de entidades como Deus, esferas angelicais, reinos da beatificação, da expiação e do castigo do inferno? Deveremos imaginar o inferno, o castigo, a culpa como pano de fundo de um fogo real que almas penadas e o paraíso como um estado completamente distinto, atravessado pelo amor? Nada em comum entre o inferno e paraíso? Estas são só algumas das perguntas que poderíamos nos fazer no contexto desta questão. Aldo Gardini (grifo meu)

Anúncios