recuperar-a-salvacaoReli recentemente o livro Recuperar a Salvação, de Andrés Torres Queiruga. Encerrados os acenos e, portanto, pelo conjunto da obra, incentivo a reflexões; observações devem ser grafadas. Alguns tópicos são confluentes e foram devidamente destacados neste livro. Considero-os regentes numa escala, pois estou cansado de ouvir discursos insossos e/ou alucinantes, vibrei com novas indicações que fortaleceu meu discurso.

Uma premissa significativa encontra-se em nota introdutória como gênese na formulação da proposta. p.e. O Problema: Desde que Deus entregou ao ser humano a sua Palavra, esta ficou aberta tanto ao íntimo calor da história humana como as suas escravidões. Vai se configurando… não num mundo intangível, mas no mundo cotidiano, amassado com barro normal da vida dos homens: com suas conquistas e também com suas opressões, com seu impulso de liberdade e com suas recaídas na neurose, com seus progressos e com seus retrocessos… Então, temos … O propósito. Qual? É Deus um juiz que incute medo , legislador que dita deveres…, ou pai que inspira confiança e promove a vida? Em suma: vive-se a religião como peso ou como libertação? Desse modo, necessitamos reinterpretar o Método: Dever-se- á esperar também que, em geral, seja comum a fé e a incredulidade, pois forma justamente o solo sobre o qual ambas dialogam e se enfrentam. Um ponto de partida fundamental consiste em que cada um procure situar-se na justa disposição subjetiva: escutar o próprio íntimo com seu pano de fundo vivencial, descobrir as raízes profundas das convicções expressas, chegar até os próprios medos e aspirações ocultos, pôr a descoberto as intenções não expressas das próprias práticas religiosas, tornar consciente o estilo vital da própria relação com Deus…

A religião vem, justamente, tornar mais suportável a tarefa. Oferece a companhia do Senhor, seu amor seu apoio, sua promessa, sua luz, seu projeto seguro… A pessoa religiosa tem de fazer o mesmo que os demais – ser pessoa – , porém conta para isso com a alegria de magnífica ajuda. A religião como Evangelho. Boa noticia.

Ora Deus é amor. Se Deus é amor e se Deus é a origem, intuímos que o amor seja, portanto, a essência da realidade, a ultima palavra da compreensão, o critério definitivo do juízo. Compreende-la seria justamente alcançar o mistério do universo. (grifo meu)

Porém, o cristianismo vivido sofre opressão: são indicadores de uma espiritualidade normal, que está infectada pelo mal. Demasiado legalismo, demasiado temor, demasiada falta de espontaneidade e de alegria na relação com Deus. Desde modo, “doutrinas” tão difundidas como a da predestinação, ou anda, A da concepção jurídica da redenção, ou a versão ingênua, cruel e legalista do pecado original (que teve conseqüências não teve, tem a seguramente continuará tendo a visão da existência humana concreta como duro castigo por uma falta que ninguém cometeu…!)

Se Deus pode evitar o mal e não quer, então, não é bom; se quer e não pode fazê-lo, então não é onipotente. Evita a ofensa irreparável. Por isso, neste ponto, o autor prefere apoiar-se no caráter de Jesus; e seu empenho na assistência e dor humana. Um Deus profundamente implicado na história do ser humano, numa luta sem reservas contra o mal, no qual não pode superar imediatamente, e que por isso sucumbe.

Outro ponto polêmico levantado por Queiruga. A de que Deus , ao criar, pretende unicamente a salvação do ser humano, e que faz tudo quanto esteja a seu companheiro inseparável, o mal, encontra-se “do outro lado” deDeus: na instintividade interna do ser humano, que o mina por dentro, e nas forças obscuras que o assaltam a partir de fora; nos condicionamentos cósmicos e nas pressões sociais. A intenção salvívica de Deus, que a narração simboliza na felicidade paradisíaca, Israel a viu encarnada em toda a sua história de salvação. A Libertação do Egito e vai aumentando e depurando-se na lembrança. Neste aspecto, o autor levanta questões e pressupostos para uma consciência libertadora. Considerando-os fundamentais para crescimento, em busca de uma genuína experiência cristã.

Portanto, o ser humano que prova em si mesmo a potência destruidora do pecado e a própria impotência diante dele, experimenta em Deus a presença poderosa do amor que salva. Na realidade, ser cristão é saber-se redimido, sentir-se salvo; é conhecer a Deus do único modo legitimo e verdadeiro: como aquele que salva, como “Emanuel” (Deus conosco), como Abbá (Pai). Então, o Filho torna-se humano para salvar o ser humano, isto é, para ajudá-lo na tarefa de realizar-se, para potencializar sua impotência, para realizar sua esperança e para preencher sua capacidade de infinito. Jesus vive até o extremo fracasso constitutivo da história de dor da humanidade: lutar para criar o bem e ver, não obstante, como o mal continua proliferando; dar-se como todo o amor aos outros e sentir-se, não obstante, desconhecido, mal compreendido e, as vezes,esmagado exatamente por aqueles a quem se ama. Se, contudo, Jesus persevera até o final, esse é o selo de seu amor, essa é a cifra de sua salvação. Sem a Cruz seria muito difícil convencer o ser humano do amor de Deus, e mais ainda de seu apaixonado interesse por nos salvar. (disse Queiruga e não eu, como disse alguém)

De fato, sem enxerto nenhum, o livro é como som de galhos secos crepitado nesta gigantesca floresta de vozes. Contém uma mensagem contextualizada e serviu para riquíssimas construções. Por enquanto é isso.

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