A força do profetismo é a lucidez. Ela é necessária nessa época de mutação. Estamos saindo de um milênio para entrar no desconhecido de uma nova era. Carregamos conosco conceitos e preconceitos de uma outra época, dos quais devemos nos libertar para fundar uma humanidade nova que responda às exigências da fraternidade. Abramos os olhos: vivemos tempos messiânicos: aqueles da mundialização e da conquista da estratosfera pelos terrestres. Os preconceitos e os interesses que impedem a paz no Oriente Médio são de uma outra época. É tempo de a humanidade se libertar deles.

Algumas colocações se impõe. Elas dependem de nossas religiões, fundadoras de nossas sociedades. O Ocidente, perversamente leigo e agnóstico – embora nós o vejamos sedento de espiritualidade – , deve voltar às suas fontes, pois seu futuro repousa na compreensão desses mal-entendidos que assombram o seu inconsciente coletivo.

O primeiro desses mal-entendidos, aquele que abre a via aos outros, é o cisma judeu-cristão. Estranho destino desses irmãos, conspurcando-se uns  aos outros para finalmente esboçar uma reconciliação na aurora dessa era. O mesmo esquema preside à rivalidade do cristianismo e do islã. Todos os dois expressarão, entretanto, uma rejeição comum da origem hebraica da mensagem. Assim como escreve o psicanalista Daniel Sibny: ” A origem do ódio é o ódio da origem”.

André Chouraqui – Meu Testamento, o Fogo da Aliança. p.52

Anúncios