A parábola do filho pródigo é a parábola da vida. Sempre que olho para esse texto, percebo situações da minha prática de viver. Por vezes sinto-me como o filho mais moço – transgressor que gosta de inovar, de ousar, de fazer coisas boas, mas que nem sempre são corretas. De vez em quando, vejo-me como o filho mais velho – o homem correto, mas que não tem prazer, que espera sempre um reconhecimento de alguém. Em outros momentos, sou o pai: cheio de ensinamentos, de compaixão, cheio de festa, cheio de espera. De alguma forma, a minha caminhada é bem retratada neste álbum de família.

A transgressão do filho mais moço é a necessidade que temos de evoluir na vida: sem transgressão, não partimos para estágios novos de caminhada. É verdade que muitas besteiras feitas por nós que resultam em grandes problemas só acontecem porque transgredimos a tradição. Todavia, também já vi muitas pessoas melhorarem de vida simplesmente por conseguirem transgredir essa zona de conforto. A transgressão faz parte da vida e é importante para a nossa evolução como pessoas.

O novo, seja ele um acerto ou um erro, precisa fazer parte da nossa percepção humana. Uma visão nova de teologia, um rompimento com a forma de pensar da família, uma guinada de profissão na meia idade ou um casamento desfeito são coisas que podem representar a volta à vida. O que todos condenam em um primeiro momento pode ser o louvável daqui algum tempo. O pecado pode vir a ser bênção. É necessário que exista a ovelhinha perdida para que o pastor possa sair a desbravar novos campos. A ousadia da ovelhinha perdida contrasta com a chatice das noventa e nove ovelhas bem certinhas. Ela serve como mostradora de novas possibilidades ao pastor. Mas se o caminho da transgressão é bom, o caminho da tradição também é necessário.

O filho mais velho representa a tradição que mantém as coisas no lugar. Expressa bem a necessidade de conservarmos valores para continuação da caminhada.  A vida não é o novo sempre. Não dá pra viver tendo a transgressão como regra, a heresia como meta, o pecado como tentativa de benção, a inovação como única marca da evolução. A tradição também é uma necessidade social e ética, fundamental para o convívio em grupos.

Durante um encontro de teologia em São Paulo, pude ouvir uma interessante palestra com o teólogo Leonardo Boff. Embora uma de suas marcas seja a visão inovadora, o que me chamou atenção na palestra de Boff foi o equilíbrio entre valores novos e tradições antigas. De fato, nesse encontro de teólogos, ele fez bem o papel de filho mais velho. Não como o chato que atrapalha a festa, mas, como o representante de valores que já existem, que são bons e que precisam ser conservados. Estruturas novas de família bem diferentes da apresentada na parábola surgem a cada dia, apesar delas, é bom mantermos valores tradicionais. Apesar das novas teologias, ainda precisamos de valores anteriores aos atuais para manter o equilíbrio.

Talvez o maior exemplo dessa mistura, desse equilíbrio, seja o Pai. É ele quem deixa o filho mais moço ir, mesmo prevendo os erros e sabendo da possibilidade de estes virem a se tornar acertos na vida do jovem. É também ele quem deixa a tradição do mais velho ficar, falar e tomar conta da rotina da casa mesmo sabendo que a chatice das mesmas coisas pode nos impedir de perceber as festas que acontecem diariamente na nossa rotina.

Acho que filhos têm muito dos pais – reflexo no espelho: cria, criatura e criador. Não é de estranhar, portanto, que os dois filhos expressem o que está no íntimo do pai: transgressão e tradição. O Cristo que cumpriu a lei e a revogou. Na verdade, a misericórdia do pai com os filhos é  misericórdia consigo mesmo. É reconhecimento de si nos outros. Foi a educação que lhes deu, ousada e rotineira, que os conduziu cada um na sua caminhada.

Também sou assim. De alguma forma, todos devemos ser assim: transgressores e tradicionais. Ora fazendo o bom, mas não correto, ora fazendo o correto que não é bom, e ora fazendo o bom e o correto.

Paulo Maurício – diretor do ICEC, professor de novo testamento, cirurgião dentista, professor de biologia.

Anúncios