A palavra “Paixão” deriva do verbo latino patior, que quer dizer “sofrer” – o  paradoxo mais profundo em toda a Bíblia é projetado em primeiro plano. A Agonia de Jesus no Getsemani.

À luz de nossa compreensão a Paixão de Cristo – Os evangelhos, de fato,  gravitam ao redor da paixão de Cristo, (GIRARD) – e a agonia começou no jardim do Getsemani, naquela noite fria que gelou por dentro, única, irrepetível.

Tangencio o tema emblemático cuja mensagem deveria ser compreendida fora da plataforma dogmática,  pois a beleza da Mensagem está na aliança renovada. Todavia sem enfraquecer o momento sagrado tradicionalmente absorvido, contraio angústia, agonia e a impotente reação humana. Ninguém foi capaz de penetrar nesse mistério. Assim, mais do que nunca, sabendo o que vinha pela frente, Jesus clamou “Minha alma está triste até a morte, permanecei aqui comigo”.  [1] Repreesenta, sofrer voluntariamente, renunciar suas posses, prestígio, e estar disposto a padecer. E naquela montanha deserta Jesus tomou o cálice do Pai.

Dizem que no sangue antigo derramado há uma virtude que tende a se esgotar caso um sangue fresco, de tempos em tempos, não venha reativá-la. “O coração é como a árvore – onde quiser volta a nascer.”[2] Jesus estava só quando  rogou ao Pai e aos discípulos que, displicentemente, adormeceram. Percebo neste relato  a excelência de seu ministério, no ato de entrega a si mesmo, de forma destemida, suportou a agonia da cruz.

Durante sua vida, jamais teve outro prazer nem outra coisa quis, senão fazer a vontade do Pai. Pois tudo foi feito para Ele, Deus preparou o caminho. João o autor evangelista escreveu “Mas é para que se cumpra a palavra escrita na sua Lei: odiaram-me sem motivo.”  E para realizar sua missão, sofre, com efeito, –  as últimas conseqüências.

Nas dimensões da vida, em alguma fase, qualquer um de nós pode experimentar um momento em que sentimos que perdemos tudo – tudo que amamos, mas não há melhor compreensão até percebermos a ausência de Deus. “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste” foi o clamor de Jesus na cruz. Quando isso acontece, gritamos numa tentativa de ouvir o eco de nossa alma. Enfim, temos nossa Paixão.

Muito embora entenda que Deus continua escrevendo nossa história, nos preparando para responder seus chamados, às vezes demoramos aprender a usá-los no momento necessário. De sorte que o que acontece no começo da caminhada torna-se mais importante no final. Às vezes, acontece em momentos enigmáticos de mysterium tremendum fascinans, dos escritos de Rodolf Otto, referindo-se à mistura de êxtase e temor que sentimos na presença do  Deus vivo.

Jesus angustiado sofreu Sua morte. (Hb 12:2; Gl.3. 1,13)) O “sacrifício” do cordeiro divino é um gesto de amor. “Um deus fraco pode chorar comigo… e por isso nos amamos…” [3] Sua paixão nos inspira a remover nossas crenças, imagens do altar do coração e deixá-lo vazio. Que a Paixão de Cristo produza em nós esperança na ressurreição.


[1] Mateus 26:38

[2] (Adaptação de um provérbio moçambicano citado por Mia Couto)

[3] Rubem Alves

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