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Os elos que nos unem a uma criatura se santificam quando ela se coloca no mesmo ponto de vista que nós para julgar algum de nossos defeitos.

Em busca do tempo perdido, PROUST

O dia estava escuro, mas o relógio marcava o tempo, 12h., meio dia de segunda-feira. Acabara de almoçar e, antes da sesta bendita, tive que enfrentar o trânsito caótico da Avenida 13 de maio em Fortaleza.

“Olhe bem tudo o que puderes ver” aconselhou Júlio Verne. Com o passar dos anos alcancei o estágio da maturidade precocemente e, chegou de mãos dadas com a impulsividade adolescente, por isso, já não mais me sinto comovido pelos apelos emocionais das demandas e expectativas da vida. Embora mantenha a disposição infantil de aprender coisas novas.

Deve haver algo de ofício na frase de Júlio Verne. Enquanto isso, a vida segue, protejo meu coração dos religiosos rabugentos e resistentes à mudança. [Is 10,1 – 2] Para Artur da Távola o processo de assimilar as mudanças não é tão fácil, segundo o escritor é mais fácil permanecer repetindo os mesmos patrões:

“Por isso é mais cômodo, fácil e simples para o ser humano cair na repetição do que já é, do que já sabe, do que já viveu. Ele chega a chamar isso de “conhecimento”, quando é, apenas, cristalização de um saber anterior.… Criar é manter a vida viva. Criar é ganhar da morte. Morte é tudo o que deixou de ser criado. Criatividade é, pois, um conceito imbricado no de vida. Não há como separar os dois conceitos. Vida é criação e criação é vida. Só criatividade nos dará uma possibilidade de solução para cada desafio novo. As soluções jamais se repetem. Nós é que nos repetimos por medo, comodismo ou burrice. Adoramos repetir, tememos renovar, por isso tanto sofremos.” [i]

Entretanto tenho a impressão de que as ideias inovadoras, em cada campo da experiência, correm mais rápido do que a assimilação ou realização, e não em conjunto – entre a ideia e a execução, a assimilação é, talvez, o processo mais lento.

No campo da espiritualidade tenho me deparado com aspectos semelhantes.

A pessoa convertida – aquela que fez a confissão de fé ou fez escolhas influenciada pelos sentimentos – necessita de um tempo para assimilar suas decisões. Esse tempo nos livra das inconsistências. O tempo para o amadurecimento da fé qualifica e forja o verdadeiro cristão:  “pois é pelo fruto que se conhece a árvore.”[Mateus 12:23], e ”a sabedoria é demonstrada pela suas ações”[Mateus 11:19]

Pois bem, o dia não favoreceu, mas cada minuto des – gasto na Avenida 13 de maio valeu a pena, porque o final foi compensado pela conversa com meu amigo Agamenon.  Aprendi por estas e outras experiências que a relação se consolida na intensidade. Afinal de contas é em condições desfavoráveis que testamos o propósito inalienável da vida.

Acredito que em algumas ocasiões nossas escolhas carregam como fato determinante o grau de interesse individual. Atitudes autocentradas, decisões convenientes. Contudo, o que caracteriza uma relação saudável é o processo de reduzir o espaço que existe entre o “eu” e o “outro”.

Que a graça te seja multiplicada.


[i] Arthur da Távola . Cada um no meu lugar Crônicas Editora Nova Fronteira, 1984, pg.63 Citado por Ricardo Gondim. Disponível em: <http://ricardogondim.com.br&gt;. Acesso em: 25/11/2013.

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