Sob o domínio da graça de Deus nos corações e na vida, é quase impossível consolidar amizade sem dispor de tempo; porque a presença eterniza o encontro. Li uma vez, e não me sai da cabeça, um texto do Milton Santos, geógrafo, pensador arguto, com destaque na área da globalização, que diz “A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que separa e não o que os une”.

Não foi por acaso que Jesus tinha em alta conta a força da amizade. Para ele o laço da amizade deve ser aperfeiçoado, bem apertado. Em João 15 diz: “…É a melhor maneira de amar. Deem a vida pelos amigos…Não os chamo mais servos,… Eu os chamo de amigos porque contei a vocês tudo o que ouvi de meu Pai.” Por isso escolheu uns poucos discípulos e gastou tempo com as pessoas, ensinando-as sobre o Reino de Deus, e aprofundando as suas relações.

Ele sabia que as relações com as pessoas são complexas. E só com o tempo, a qualidade desse relacionamento muda, tornando-se sólida e duradoura, mas para isso acontecer, exige de nós dedicação, tempo e amor. Tempo, esse período em que os fatos se sucedem e acelera a vida, deve ser administrado com sabedoria. Na amizade, então, é essencial partilhar. Assim, como experiência da própria humanidade, torna-se necessário dar a atenção a quem deseja nossa presença. Lembre-se de um ditado africano: “Se quiser ir apenas rápido, vá sozinho; se quiser ir longe, vá com alguém”…

Somente nesses momentos, às vezes aqui e agora, temos a experiência vivida, não pensada, de compartilhar sentimentos – o que ninguém pode fazer por nós. Dessa maneira permanecemos fiéis à relação. A razão principal é que é necessário tempo para ajustar a amizade, sob pena de enfraquecer o tecido que nos une. Além disso, é oportuno tirar a limpo mal-entendidos, para não colocar conjecturas além do que é aceitável. Afinal de contas, há sempre algo para aprender.

A famosa frase do poeta John Done “Nenhum homem é uma ilha” ainda vale para os nossos dias. Nesse sentido, quando ocorre intenso tráfico de sentimentos e emoções entre as relações, temos a noção de que somos dignos de amor. Isso somente acontece por meio de uma percepção possível e instigante, vale mais dizer, no valor especial que atribuímos a pessoa, então “o amor compartilhado é aprendido” – e a força da amizade é provada.

Que a Graça seja multiplicada.
Chagas

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