“Há momentos em que é impossível saber se é melhor ganhar ou perder”.

[frase título de Jonathan Sacks, rabino chefe das congregações judaicas]

Na minha época de ensino médio tive uma professora chamada Betinha. Mulher calma, mas falava grave: usava um jaleco branco e um cachecol enrolado com franjas amareladas dava-lhe ar materno. Notei que tinha cicatriz no braço esquerdo, por isso usava um bracelete, feito a mão, de bordado.

_ Ó Francisco – falava com as mãos no bolso do jaleco, juntas por baixo, como de costume  –  por que não terminou a tarefa?  Precisa acabar com essa leitura meu jovem.

Preciso? Perguntei desalentado a mim mesmo – preciso mesmo terminar essa  tarefa?. Meu único estímulo para concluí-la, era correr pra desfrutar do serrado, banho de  rio, e da horta do tio Neu. Sua casa ficava na encosta cercada pelos morros, pequena, limpa e cheirosa. Ao lado um regato escorre de forma sinuosa e moleque. A sombra das árvores que cercava a casa  e o frescor das águas era um encanto para minha alma sortuda de adolescente:

– Já terminou Francisco? Aonde vai, agora, com tanta essa pressa? Pressionando-me com voz empostada.

– Tô indo pro rio tomar banho e pescar.

Naqueles dias bucólicos e frebis de mocidade, a disciplina de fazer longas leituras era um terror. Hoje faço o que faço com prazer…

Li em algum lugar que a vida não é para exposição em vitrine, e sim uma oportunidade, a cada instante, de descobertas.

E por falar em literatura, os poetas tecem palavras com fios de ouro sobre o assunto:

Hendricks estava com razão quando disse que os dois fatores que mais nos influenciam e nos transformam são os livros que lemos, e as pessoas com as quais convivemos.

Rubens Alves qualifica a leitura de processo cirúrgico. “ Interpretação é bisturi do cérebro que retalha a palavra. Mas o poema é palavra mágica que chama a vida que mora escondida em nós”

Eugene Peterson chega a afirmar: “ler exige imaginação.”

Oscar Wilde disse que o lugar de Jesus é com os poetas. A poética espiritual ainda não explorada. Fechada aos olhos literalistas.

Às vezes, por distração não percebemos a riqueza de uma frase quando foi  lida sem a devida atenção. Assim como certas coisas precisam de um tempo para ser assimiladas – sem a pressa de aprender. Ou alguém que diga, quando necessário, há um caminho naquela direção.  Por outro lado,  porém, outras pessoas, p.e., os mestres da suspeita:  Nietzsche, Marx e Freud, também ensinam a não aceitar a literalidade. Esses homens tem minha apreciação.

Retomemos a frase, imbuídos de reflexão.

Toda perda traz algum tipo de ganho, por menor que seja. Ora, há ocasiões também em que precisamos de uma rajada de vento contrário para conter os impulsos e constatar que os desacertos trazem o bem. Essa equação, tão fundamental para vida, ainda é um grande mistério.

Por isso, não nascemos prontos, lembra-me Mário Sergio Cortella, filósofo e educador.

Por ultimo, neste momento oportuno, devo muito à minha professora Betinha, que tolerou minhas traquinagens infantis, sem sua tolerancia e domínio em sala de aula, eu não teria aprendido o prazer de ler.

Que a graça seja multiplicada.

Chagas

“Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos!… Porque dele, e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém.”

[Romanos 11.33,36.]

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