“No século XXI, a agenda religiosa será definida não pelas respostas da tradição, mas pelas perguntas da comunidade.”

(Harold Kushner – 2016)

“ESTÁ ESCRITO.” Esta é a expressão mais usada por aqueles que optam  a interpretar a bíblia pelo viés da literalidade. Se “está escrito na bíblia”, não devemos discutir. Todavia um dos desafios mais relevantes da igreja é exatamente a busca de respostas para a vida cotidiana e aproximações com as escrituras.

Ora,  de acordo com as normas  hermenêuticas a  aplicação do texto deve ser contextualizada,  dinâmica e prudente. Há quem diga que, se as regras existenciais não são mais eficazes para se definir determinados sentidos, devemos mudá-las. Em lugar disso, as regras são ferramentas, nesse caso específico, e sempre será muito  mais fácil encontrar respostas se as usássemos corretamente. Segundo Eugene Peterson (2004),  “tornar a Palavra de Deus acessível não resultou, necessariamente, no amadurecimento espiritual e teológico da nossa geração.” A esse propósito cumpre-nos fazê-la com fidelidade a fim de ampliar cada vez mais o horizonte de investigação. Do contrário,  usar de respostas prontas sobre aspectos incompreendidos na Bíblia, os quais “os evangélicos tradicionais” paradoxalmente insistem em afirmar exatas especificações hermenêuticas, é a mais clara prova de acomodação, quiçá, de  ignorância.

“Entender os textos bíblicos, aplica-los às novas situações e discutir os problemas teológicos à luz é parte da condição humana. Evitar essas discussões e usar as Escrituras como uma espécie de computador automático com respostas prontas para cada problema não é uma posição de respeito pela Palavra de Deus para nós.” (R. Gallagher).

Pedro Paulo, padre, professor, pensador arguto, homem sereno de fala moderada, mas irônica e inflada por um sorriso sarcástico no canto da boca,  citava em sala de aula exaustivamente uma frase.  “A maioria de nós não sabe quais são os limites de nossa compreensão”. Além disso, sempre a destacava no rodapé  das resenhas devolvidas. Essa citação era lançada à  minha direção como foguete teleguiado – daqueles que segue a alma, quanto mais o coração até você corar de vergonha.   Numa ocasião, nesse mesmo ano,   fiquei irritadíssimo com ele : “Lá vem ele com essas estranhezas de psicologismos e filosofismos. Ele está de marcação comigo, e vai me reprovar”.   Mas no fim da disciplina, sem resenha, e já  com a nota carimbada no diário, seguida de “aprovado”,  ele resolveu aprofundar o laço; chamou-me à sua mesa e disse: “Não diga que você concorda,  discorda ou suspende seu julgamento, até que possa dizer: Eu entendo’. Chagas,  essa citação e a outra  que eu escrevia em suas resenhas para chamar sua atenção  era de Mortimer Adler. Ela está marcada nesse livro aqui. p. 267. Pode levá-lo pra casa.” [1]

Admitindo que o mundo se desenvolva a partir de determinadas direções, já se está, aceitando a existência de novas concepções.

Hoje não é mais como ontem! Todo mundo sabe que a terra não encolheu, o mundo está em constante desenvolvimento. À medida que o mundo segue o seu curso natural uma nova curva revolucionária é construída num campo inexplorado. A naturalidade não explode subitamente, acontece de acordo com seu ciclo. Na verdade, as mudanças seguiam um ciclo, hoje não mais. Somam-se as transformações sociais, uma sociedade ritmada pelo consumo. Viver de acordo com o ritmo pela sociedade de consumo, torna-se quase obrigatório. Viver sob ameaças constantes o homem busca oportunidades de sobrevivência: Ou ele se atualiza ou torna-se especialista em “dinossauros e tartarugas”.

No campo da educação não existem mais etapas, agora, o assunto é continuo e infinitamente mais vasto do que podemos imaginar. As redes sociais motivam a nova geração. De maneira que conectam o mundo em torno de si. Ninguém é de ninguém. Ninguém está sozinho. “Homem nenhum é uma ilha” (John Done). No campo da teologia, é equivalente. Os teólogos desde sempre transcenderam as categorias e linguagens de sua época – apesar da hierarquia predominante aprisionar o saber.  Nunca a expressão “mil anos em um dia” ficou tão fácil de entender. Com tanta informação, os vetores de transformações da sociedade como a invidualização e a individuação, a memória, a oralidade, a razão critica, os saberes, como “o processo de racionalização” de Max Weber (1864-1920)[2],  ajudam-nos  a buscar, agora, desiludidos, novas concepções , sobretudo,  a pensar melhor.

De maneira distintiva usamos a expressão “está escrito” como resposta pronta, dentro de uma realidade de grandes transformações sociais, tecnológicas, e científicas; mudanças de novas concepções humanas – especialmente de sua relação com o absoluto e o seu modo de vida. Do tempo e o espaço. O tempo humano não é mais o tempo das máquinas, tornou-se instantâneo. O espaço do homem deixou de ser tribal e restrito, foi ampliado pelo fio condutor social, tornando-se globalizado. Acreditamos que essa visão é limitadora, pois não conta com a capacidade do homem de se reinventar. Desse modo, consideramos a Bíblia tão somente um manual de sistemas de condutas, mas, sobretudo, uma narrativa de um povo com suas culturas e costumes, linguagens e crenças. Muito embora, pensando bem, a visão cristã e seus valores atuam no desenvolvimento de uma melhor visão secular.

Por todos esses aspectos, percebo que a frase “Está escrito” ficou encravada na rotatória ou no eixo da história apenas como sinalizador de novos rumos de um mundo fragmentado. E dessa forma não acompanha mais a aceleração dos tempos e das novas descobertas. Pensar a ação de Deus no mundo é um desafio para nossos dias. A um simples observador, diante de um cenário evangélico atual,  fica claro que as respostas prontas “está escrito” e  “vida dinâmica integral” não são mais termos equivalentes. Fica aqui o grande desafio, vivendo numa realidade de conflitos e contradições, de encontrarmos uma hermenêutica contextualizada harmonizada com uma espiritualidade que toque o coração de Deus.

Que a graça seja multiplicada.

[1] Mortimer J. Adler e Charles van Doren. Como ler livros. Realizações: Rio de Janeiro, 1972.

[2] SCHLUCHTER, Wolfgang. O desencantamento do mundo: a visão do moderno em Max Weber. Rio de Janeiro: UFRJ, 2013.

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